Insegurança

É um sentimento que nos toma, como uma sombra que cresce no horizonte ou uma núvem escura de chuva que cobre o céu apagando a luz do sol por um momento. A insegurança é um tipo de medo, mas para mim uma espécie pior de medo. Sem motivo, razão e as vezes coerência ela toma seu coração de súbito enchendo sua cabeça de dúvidas, incertezas e perguntas que você nunca teve antes.

O que fazer quando a insegurança bate na porta da sua mente e toma de assalto todos os seus pensamentos? Será que a melhor opção é combatê-la? Ou será que a insegurança não é nada além de um instinto protetor, te avisando que você pode estar embarcando em algo que não dará certo?

O motivo deste post após tanto tempo sem atualização é por esta aflição que assola a minha mente a algum tempo. Para aqueles que não sabem (a maioria de vocês, se é que alguém ainda lê este blog) eu tenho planos de mudar para a Europa em janeiro para tentar minha vida no país. Não será a primeira vez que eu mudo do Brasil, morei um ano em Londres, e voltei. A minha insegurança vem da minha situação. Sem saber direito se meus planos darão certo (gostaria de ser um autor publicado, de fazer uma faculdade em uma matéria que gosto e de conseguir viver confortavelmente financeiramente) eu fico me perguntando se a viagem iria me proporcionar a melhor oportunidade para alcançar esses objetivos ou se não seria melhor ficar no Brasil.

Os motivos disso são: a famigerada crise Europeia. O país para o qual eu mudarei será a Espanha (pelo menos de imediato, gostaria de voltar para Londres), um país que, caso você assista os jornais, não está “bem das pernas” e obviamente, meu irmão e sua esposa (com os quais irei morar, pelo menos de imediato) também não estão em uma situação completamente confortável (mas também não estão em uma situação crítica, ou esta dúvida nem existiria). E com isso me pego pensando se trocar um país até o momento estável por outro instável seria a melhor ideia.

O segundo motivo é a minha escolha de carreira. Confesso a vocês que amo as artes e adoraria viver da escrita, mas enquanto isso não acontece não planejo viver em um emprego de vendedor (nada contra os vendedores) esperando por um milagre no dia em que “serei publicado e ficarei rico com meu livro”, até porque sou realista e apesar de esperar e achar que o meu livro, quando terminado, venha a ser sucesso, mantenho sempre fresca a ideia de que tudo pode ser um fracasso. Portanto eu gostaria de fazer uma universidade que pudesse me dar um retorno financeiro mas que também me satisfizesse.

A terceiro e último motivo de minha insegurança é justamente a mudança de país. A Espanha é um país novo do qual eu não sou exatamente fã. Eu não falo a língua e particularmente não gostaria de ir para lá. Além disso, não sei direito como funcionaria a minha ida ao país e o meu ingresso na vida acadêmica do país já que não sou espanhol (claro que tenho uma ideia e sei o que fazer, mas todos nós sabemos que as coisas sempre são diferentes do que se dizem sites, especialmente em países latinos onde as pessoas parecem ter algum problema com dar uma informação precisa).

Por fim, eu simplesmente espero que as coisas deem certo para mim e que eu consiga seguir a minha vida me equilibrando em minhas próprias pernas. Acho que cheguei em um ponto da minha vida em que eu quero estabilidade e certeza (culpa talvez da minha velhice precoce, sempre fui mais sério para a minha idade).

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Necromania

Semana passada não atualizei pq foi meu aniversário dia 16 e eu fiquei sem internet tb, sorry.

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Uma vez me falaram que “o alimento preferido da alma humana – se é que esta existe – é a desgraça alheia”. No momento em que a frase chegou aos meus ouvidos, imediatamente concordei. Pareceu-me uma verdade detestável, mas, antes de tudo, uma verdade. Duvido muito que qualquer de vocês que agora lêem este texto nunca se pegou pensando um “bem feito” pra aquela criaturazinha desagradável que tanto incomoda. Sim. Temos um impulso único de nos deliciar com quase tudo de ruim que acontece com aqueles semelhantes cuja companhia não apreciamos (se me dão licença para um eufemismo). Pior: algumas vezes nos contentamos com o infortúnio de pessoas que sequer conhecemos.

A peculiaridade reside naquele “quase tudo de ruim”. Ocorreu-me que eu mesmo não me regojizava com certos tipos de desgraças. Isso porque, a meu ver, a pior das desgraças, o castigo dos castigos, era a morte e esta não me agradava em nenhum sentido. Na ocasião em que a frase anteriormente citada fora proferida , entretanto, comentava-se especificamente sobre aqueles momentos em que a vida de um ser humano estava por um fio e justo por isso todas as atenções acabavam se voltando para este fato. O ponto central (e macabro) da idéia seria, então, que a morte de alguém nutrisse certa forma de conforto.

Não pode ser o caso. Não contesto o interesse humano pela morte, seja de um igual, seja de qualquer outra criatura, mas não é possível afirmar que ela nutra nem mesmo um pingo de conforto.

Regra geral, a frase “antes ele do que eu” é dita, na maioria das vezes, apenas por se dizer. A verdade é que sempre possuímos – e enquanto existirmos, possuiremos – um medo nada irracional da morte. Esse medo se mostra em tudo que de alguma forma tenha ligação com esta. Rejeitamos a velhice, repudiamos o suicídio alheio e nutrimos o mais profundo asco pelo homicida.

Mas não importa como se mostre. A morte nos atrai para um buraco negro cujo efeito é impossível de se evitar. E quando alguém morre, conheçamos a pessoa ou não, nossa curiosidade ascende como um monstro descontrolado. A morte alheia é o poço sem fundo no qual insistimos reparar sempre com surpresa ainda que saibamos todas as suas proporções. Pode vir acompanhada de luto, ódio ou revolta, mas o interesse, a atração e às vezes a excitação (aqui um misto de medo com alívio) são imprescindíveis.

Ao que parece, o ser humano, tão prepotente, só toma consciência de que há morte quando a vê de perto e ela lhe parece, entre muitas coisas, absurdamente interessante. É como uma droga de efeito instantâneo que faz ascender emoções desconhecidas, todas advindo ao mesmo tempo com uma potência assustadora. A morte alheia é a rocha na qual nos equilibramos para não cairmos no precipício que foi feito para nos engolir e que tira nossa atenção do belo horizonte que fica além dele.

Sempre quando alguém morre, olhamos para essa pedra como se a víssemos pela primeira vez. Analisamos sua forma, o lodo e como nossos pés estão posicionados. Se conscientes do que está acontecendo, podemos continuar assim ou mudar de posição, tudo para garantir que a queda demore um tantinho mais. Algumas pessoas, todavia, olham para baixo e sem saber reparam que “olha!” a pedra estava ali o tempo todo, inclinada e apontando para um abismo. O precipício está lá, com seu fundo negro, esperando, talvez rindo da inevitabilidade do tombo que sua próxima vítima vai levar.  E fora isso não há nada mais nesse buraco sem fundo.

A rocha que é a morte alheia, então, nos dá o conhecimento para podermos evitar uma traumática queda, possibilitando a oportunidade de se olhar para frente de forma segura e deixando o abismo para depois enquanto reparamos em todas as outras coisas do mundo.

A desgraça alheia – pelos menos esta desgraça em específico – não é o alimento preferido da alma humana. Não, não. Ela é o recado que o mundo dá de que é preciso se equilibrar de vez em quando antes de voltarmos a lidar com nossos horizontes.

Ode a Arte

Esse texto é uma homenagem minha a arte, espero que vocês se interessem o suficiente para poderem vocês mesmos apreciarem a beleza da arte e se possível, criarem sua própria arte.

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O que é arte? São pinturas? Esculturas? Ou é algo físico, como dança ou canto? A verdade é que a arte é tudo isso e mais.

Apreciar a arte é algo que nem todos conseguem, sejam por falta de interesse ou por simples falta de conhecimento do por que aquilo é arte. Sim, por que arte precisa de contexto.

Falando em termos simples, a história é uma casa e a arte são as pessoas que moram lá dentro. Através da arte podemos conhecer desde os momentos mais ínfimos da vida da vida de uma monarquia (As Meninas – Velasquez) até mesmo ao momento de uma catástrofe tão grande, como um bombardeio (Guernica – Picasso). Através dela é possível entendermos todos os por quês, quando e onde as coisas aconteceram, sem arte a história seria apenas uma coleção de fatos chatos e muitas vezes superficiais.

Mas não é só para documentar momentos que serve a arte, serve também para quebrar barreiras e propagar idéias, sejam elas ideológicas (como o musical Hair), seja para lutar por seus direitos (como o uso da moda pelas mulheres, usando ternos e queimando sutiãs), ou simplesmente para mudar alguma coisa (como fez Nijinsky, crucificado na época por criar o que hoje em dia é o balé moderno).

A arte é a melhor maneira do ser humano expressar sua própria alma, já que a boa arte vem do lugar mais profundo de nossa alma, de um lugar que a maioria das pessoas não vê e onde ficam nossas emoções mais intensas, tão poderosas que podem conseguir emocionar uma pessoa pelo simples ver de uma obra, pelo simples recitar de uma poesia ou pela leitura de um livro. A arte tem o poder de apaixonar, de odiar, de entristecer, a arte é o homem, e o homem é a arte.

Em um mundo de tanta objetividade e matemática, a arte está cada vez menos valorizada, mas jamais será esquecida enquanto os pilares gregos se mantiverem de pé.

Viva a Arte.

 

Um encontro atemporal – Parte II

Como prometido a continuação, perdoem qualquer erro, é por falta de revisão.

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“Passamos 2 semanas arquitetando um plano para roubar o museu nacional. Não seria nada fácil afinal eram 1500 anos de segurança melhorada. A surpresa veio quando descobrimos que a segurança era mínima, provavelmente porque naquele futuro os furtos e a pobreza eram algo quase inexistente, quase me dava vontade de entender como eles fizeram para poder levar de volta ao passado uma vez que estejamos em nosso tempo.”

-Diário mental dos irmãos Hope


– Certo, acho que já estamos preparados. Vamos repassar a lista pela última vez. – o Hope mais velho abriu a lista em seu celular e foi falando em voz algo, dando cliques nos itens a medida que eram confirmados.

“lanterna, cabo inteligente extensor, evapora vidro e bomba-flash…” – o Hope mais novo confirmou item após item e ambos fechadas suas mochilas saco-sem-fundo, que era igual uma carteira mas que se alargava por dentro sem aumentar o tamanho por fora. Algo muito útil no futuro já que se carregava muita coisa.

– Vamos nessa. – ambos colocaram suas carteiras no bolso e saíram vestindo blusas de frio com capuzes pretas, discreto apesar de um pouco antiquado. O museu era mais ao centro da cidade e eles usaram as tubulações de ar para se movimentar. Esses tubos eram enormes tubos subterrâneos como esgotos só que limpos e claros onde as pessoas se transportavam sendo levadas em cápsulas enquanto uma corrente de ar passava por toda a cidade, todo o circuito era inteligente e automático, bastava escolher a destinação.

O museu nacional era muito antigo, era desenhado no estilo no Partheon grego, todo branco, alto e com enormes colunas na entrada. Sua fachada era talhada de imagens de batalhas e monstros sendo derrotados por heróis milenários. Na porta dois guardas vestindo seus capacetes digitais e carregando armas de choque leve, apenas para atordoamento, evitava-se a morte de inocentes a qualquer custo desde que fora criado o centro de reabilitação permanente 1000 anos atrás. Não havia câmeras nem grades então foi fácil para os dois irmãos pularem a cerquinha decorativa que separava a rua dos jardins do museu.

-Vem. Certo, nos três jogamos os cabos. 1… 2… 3… – os dois apertaram o botão de algo que parecia uma caneta e fios se lançaram da ponta pregando na parede. – Vamos subir até a janela.

Os dois irmãos colocaram o pé na parede e subiram devagar até a grande janela em arco que ficava na lateral do museu. Usando o “evapora vidro” fizeram um buraco grande o suficiente para passarem pela janela e entraram no museu, exatamente na sessão de artigos egípcios onde estavam em exposição sarcófagos, obeliscos, múmias e todos os tipos de coisas que se espera de uma seção egípcia.

– O relógio está no final do corredor. – o mais novo olhos no mapa holográfico que havia baixado em seu relógio e ambos foram abaixados até a porta da sessão, abriram um pouco e deram uma olhada. Tudo limpo. Saíram andando devagar, verificando cada canto para ver se não vinha ninguém atrás deles. Nada.

Ao fim do corredor uma grande porta de madeira ia do chão ao teto, parecia muito pesada. E era. Nessa seção ficavam artigos e origem desconhecida, como colares misteriosos e o relógio dourado que eles tanto procuravam. “Só mais um pouco” – falou o mais velho excitado só de pensar em poder ver seus pais novamente, já fazia muitos meses.

Finalmente quando chegaram à porta de maneira os dois a empurraram com esforço. Aos poucos a porta foi se abrindo, até que estava escancarado, com o relógio colocado bem ao meio sobe um pedestal de vidro. Parecia tão perto e ao mesmo tempo tão longe. No bolso do irmão mais novo o relógio prateado ressoou, como se o dourado o chamasse. Era um sinal, eles estavam certos.

– Vamos! – falou o mais velho entusiasmado, mas antes de conseguiram dar três passos adentro ambos perderam o chão, começaram a levitar e quando viram estavam presos dentro de uma bolha invisível.

– Mas o que é isso? – indagou o mais novo, “nadando” no ar.

– Isso é uma bolha de contenção gravitacional. – falou a voz de alguém que entrava na sala, era um dos guardas da entrada do museu.

“Vocês pensaram que poderiam entrar aqui assim tão fácil? As medidas de segurança são ocultas por espelhos refletores e não são comunicadas ao publico para que prendamos ladrõezinhos como vocês dois. E pelo que eu estou vendo nem fizeram o mínimo de sua lição de casa para serem presos em uma armadilha tão básica.

O mais velho bufou com a arrogância do guarda enquanto o mais novo parecia prestes  chorar, todas as suas esperanças terminadas em um momento de estupidez, era o fim.

– Albert, quem está aí? – outra voz rouca vinha agora do fundo do museu, acompanhada de passos.

– Não é nada doutor, só alguns ladrões.

– E o que eles queriam roubar, Albert?

– Não sei doutor, vamos ver. Ei vocês, o que vocês pretendiam roubar.

Os dois ficaram calados, o mais novo apertava o bolso com força.

– Não querem falar doutor…

– Certo, vamos dar uma olhada então – os passos ficaram mais depressa e logo a silhueta tomou a forma de um senhor idoso de barba longa e óculos redondos, ele deveria ter uns 65-66 anos de idade, usava jaleco e uma gravata muito antiquada para os tempos em que viviam.

“Ora, é espantoso, eles se parecem, não pode ser… Albert reviste-os, por favor,”

– Certo. – Albert se aproximou da bolha e abriu um menu no ar, lá ele digitou alguns comandos e todos os objetos dos Hope saíram de seus bolsos e começaram a flutuar dentro da bolha, inclusive o relógio.

“ Esse relógio, não pode ser, é o relógio de prata. Onde vocês o conseguiram?”

O mais velho continuava de cara fechada, porém, o mais novo acabou contando tudo que havia acontecido com eles e por que eles estavam ali. No fim o doutor colocou a mão no queixo  e assentiu.

“Como eu pensei, Albert, traga-os até a minha sala…”

– Tem certeza senhor? São ladrões!

– Não se preocupe Albert, eles não são ladrões…

Continua…

Desculpas

Olá a todos, aqui quem fala é seu autor, Juliano. Só queria pedir desculpas a todos pela falta de postagem na sexta, acontece que eu estou tendo um bloqueio criativo essa semana, mas prometo que segunda tem continuação de “Um encontro atemporal” e na sexta um artigo meu sobre Arte

Venha ver o pôr do sol

Esse conto foi um dos primeiros que eu li, é de Lygia Fagundes Telles e é um dos meus favoritos e acho que a maioria de vocês irá gostar também.

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ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.

– Minha querida Raquel.

Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.

– Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima

Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.

– Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância…Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?

– Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? – perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. – Hem?!

– Ah, Raquel… – e ele tomou-a pelo braço rindo.

– Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado…Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?

– Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?

Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.

– Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. – Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?

Brandamente ele a tomou pela cintura.

– Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.

Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.

– Ver o pôr do sol!…Ah, meu Deus…Fabuloso, fabuloso!…Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério…

Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.

– Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura…

– E você acha que eu iria?

– Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada…- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.

– Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?

– Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.

– Mas eu pago.

– Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.

Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.

– Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.

– Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

– É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

– Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo…

O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

– É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.

– Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.

– Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.

Delicadamente ele beijou-lhe a mão.

– Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

– É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.

– Ele é tão rico assim?

– Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…

Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.

– Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?

Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.

– Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã…Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.

– É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?

– Nenhum – respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: – A minha querida esposa, eternas saudades – leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.

Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.

Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas…Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.

Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.

– Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. – Chega Ricardo, quero ir embora.

– Mais alguns passos…

– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.

– A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: – Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

– Sua prima também?

– Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos…Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas…Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.

– Vocês se amaram?

– Ela me amou. Foi a única criatura que…- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.

Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o

– Eu gostei de você, Ricardo.

– E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.

– Esfriou, não? Vamos embora.

– Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.

Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.

– Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.

– Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?

– Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.

Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.

– E lá embaixo?

– Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?

Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.

– Todas estas gavetas estão cheias?

– Cheias?…- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.

Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.

– Vamos, Ricardo, vamos.

– Você está com medo?

– Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!

Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:

– A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?…- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos…Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.

Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.

– Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando…

Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.

– Pegue, dá para ver muito bem…- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.

– Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça…- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida…- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti…

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.

– Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?

Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.

– Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

– Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.

Ela sacudia a portinhola.

– Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. – Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…

Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.

– Boa noite, Raquel.

– Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.

– Não, não…

Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.

– Boa noite, meu anjo.

Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.

– Não…

Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

– NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Aviso

Para ficar melhor organizado e mais fácil para que os leitores absorvam o conteúdo postado eu vou começar a atualizar o blog sempre as segundas e sextas, geralmente com diferentes gêneros literarios nesses dias. Não será algo padrão mas no geral fiicará narrativa na segunda e artigo na sexta.

 

Obrigado e continuem lendo 😀

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